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segunda-feira, 19 de abril de 2010

CRÓNICAS DA AMÉRICA


Comecei por me encaixar hoje, pouco depois das 10 da manhã, no sofá da sala, deitado e tapadinho que o tempo está incerto. Abri a companhia do “jazz” e agrupei três relíquias finalmente adquiridas: dois CDs do Herbie Hancock, editados nos finais dos anos 60, e um do Keith Jarrett em trio, de 1991. Mas tive de mudar de posição: ler pela manhã na sala da minha casa não pode ser feito contra a janela do lado nascente – mal conseguia fixar as letras das 29 páginas que me faltavam para completar a leitura das “Crónicas da América” do Luis Miguel Mira. Virei, assim o fofo das almofadas por 180 graus e a luz inundou calmamente as páginas sem me ferir a visão matinal adormecida.

Estou aqui para cumprir mais um desafio do meu editor e amigo José Borges Marques, e só há oito dias conheci o autor, cujo rosto, confesso, não me é estranho. Será verdade, Luís?

Apresentar um livro não é, na minha opinião, o mesmo que criticar – deixo isso para os espertos, tradução livre para “experts”, e como todos sabemos em Portugal há muitos espertos entendidos em quase todas as matérias.

Assumir o papel que hoje me atribuíram não é também desfilar um rosário de banalidades valorosas, sem pés nem cabeça, sobre o autor e a obra em causa, um panegírico sem sentido. Falar deste livro – aprendi folha a folha – só é possível depois de o lermos, entrando nele pela “Route 66”, por exemplo, e vogar por um país que é um continente de histórias tão intensas quanto a distância que separa Chicago de Los Angeles. O Luis e a Cristina fizeram-no.

Não sou um cinéfilo, nunca entrei na Cinemateca (acho eu), apesar de ter passado muitas horas de Sol nos bastidores da Velha Tóbis, enquanto o meu tio e padrinho de baptismo filmava “A Cruz de Ferro”, meio perdido entre as maquetas de uma aldeia minhota ali reconstruída.

Como o Luís é um estudioso da indústria cinematográfica, com ele aprendi os movimentos da câmara a filmar, revendo alguns dos títulos já esquecidos de filmes marcantes, os realizadores, os argumentistas, o escritor clássico e o livro que inspiraram o guião, os artistas, as épocas.

Por acréscimo, surge a música e alguns dos meus/nossos heróis; Gram Parsons, porque abre a primeira crónica e fundou uma das minhas bandas de referência, os Byrds (tenho uma guitarra igual à do líder do Roger McGuinn que muito trabalho me deu conseguir em Paris), Bob Dylan e Woody Guthrie, Springsteen, Otis Redding e naturalmente os Doors do meu primo Morrison, a banda que colocou Los Angeles no roteiro da música popular, também Nat “King” Cole que o meu pai, tenor que apenas soletrava a palavra inglesa “offside”, com o “f” mais em “v”, imitava para deleita da minha Mãe.

E depois há Steinbeck, Hitchcock, James Dean, John Wayne, Marilyn Monroe e Arthur Miller, que aprendi a ler por causa desse meu tio/padrinho actor, Antonioni e John Ford e tanta coisa que a película registou antes de eu ter nascido, que o Luis conhece, enaltece e revela como só um apaixonado muito bem documentado pode partilhar connosco. Os “westerns”, que revelam a imensidão do continente americano, têm aqui uma expressão muito particular.

Este livro é uma viagem pelos locais onde muitos filmes foram realizados, com o escritor e a sua Bonnie (Cristina em português), calcorreando passeios, tocando os objectos, olhando em privado e estarrecidos a amplitude dos locais: serras, lagos, pequenos hotéis de estrada ou luxuosos casinos, bares e restaurantes, barcos, ancoradouros e rios, prisões, lugares de culto que a lente focou, e o espaço sem fim dos desertos, as florestas, as estradas do tamanho do horizonte.

Revelo-te um segredo meu, caro Luís: também sou coleccionador de pequenos faróis que me levam a um momento qualquer do meu passado, talvez às tramóias dos “Cinco” que ambos lemos. Sem esquecer outro ponto em comum: o “Mundo de Aventuras” e o “Falcão”, onde também havia o super-agente ENE 3.

Este é um livro de palavras com fotos, mas onde as palavras e as histórias valem por si quando nos abrem a imagem das emoções que o Luís foi vivendo em cada lugar - viajamos assim sem sair do sofá. Na página 51, a propósito, escreverá: “Mostrar-vos fotografias a pretexto de outras coisas, ou falar de outras coisas a pretexto das fotografias…”.

Por vezes entrei pela “estrada fora” como Jack Kerouac, esta pulsão para a viagem e a descoberta, o trilho e os comboios que apaixonam o autor, apesar da viagem ser feita de “Chevrolet”. E o requinte dos vinhos que foi degustar à Califórnia em refeições opíparas estou-me a lembrar das ostras compradas no barracão, apesar do barracão -, debruçadas em paisagens que homens e mulheres do celulóide, suas paixões e misérias, sorveram num tempo só de urgência. Ao invés este é um livro calmo, em ecrã gigante com melodia sofisticada, enquanto o charuto arde mansamente e a voz “off” comenta.

Apaixonei-me na adolescência pela cultura americana e aquilo a que pomposamente chamávamos contra-cultura: literatura e discos aos molhos enchem salas na minha casa, coleccionados desde a adolescência. Com o tempo e os disparates da arrogância belicista americana, em que uma família de “Bosques” se prolongou até ao enjoo e à desgraça, afastei-me daqueles que vivem do outro lado deste Atlântico que nos afaga as praias. Contigo, no seguimento do velhinho “Easy Rider” que vi pela primeira vez há muito tempo numa esplanada do Laranjeiro a céu aberto, reabri a janela da emoção dessa grande nação capaz de tudo, do pior ao melhor.

Por fim, dir-vos-ei que gosto dos lisboetas que ao domingo atravessam o Tejo de barco, aportam ao cais da Trafaria - uma das praias chiques de Lisboa no princípio do século passado – e se deliciam com os petiscos à base de peixe e marisco que os deste lado (daquele onde nasci e vivo) sabem cozinhar para os forasteiros.

Foi assim que conheci o Luis Miguel Mira e a Cristina num domingo, por causa de outro Luís, Pinheiro de Almeida, velho camarada da arte musical.

Termino com uma citação do primo acima referido: “Os filmes são colecções de imagens mortas às quais é dada inseminação artificial”.

Como se sabe o rapaz deixou os estudos cinematográficos na UCLA e fundou os Doors, para nosso bem. De filmes percebes tu.

Obrigado por este privilégio.

Aroeira, 17 de Abril de 2010

Texto de António Manuel Ribeiro
Fotografia de Teresa Lage

quarta-feira, 14 de abril de 2010

CRÓNICAS DA AMÉRICA - APRESENTAÇÃO

Caro(a)s Amigo(a)s!

A apresentação pública do meu livro “Crónicas da América – Na Rota dos Grandes Espaços da Música e do Cinema”, cujo conteúdo foi integralmente publicado neste blogue, já tem data e local confirmados: será no sábado dia 17 de Abril, às 16H30, na Livraria Buchholz, sita na Rua Duque de Palmela, nº 4, em Lisboa (perto do Marquês de Pombal).

O special guest star que fará o favor de dizer duas ou três palavrinhas àcerca da “obra” será o de todos bem conhecido António Manuel Ribeiro, Poeta e vocalista dos UHF.

A Livraria Buchholz é uma das referências históricas da Cultura desta cidade, e esteve durante muitos anos encerrada. Reabriu ao público no passado dia 8 de Abril, sob a gerência do José da Ponte e da Cristina, que são Amigos que alguns de vós conhecerão.

Para além de um grande prazer pessoal meu e do meu Editor, José Marques, a vossa presença será, igualmente, uma importante forma de apoio para um Projecto Cultural que se deseja diferente, nestes tempos em que as grandes superfícies “comem tudo e não nos deixam nada”!

Como os Amigos dos meus Amigos meus Amigos são, estão livres para tornar este convite extensivo a quem muito bem entenderem…

O livro já está a chegar às livrarias e poderão encontrá-lo, também, na livraria on line Wook.

Mas não dispensem a ida às livrarias, porque folhear um livro numa boa livraria é outra loiça…!

É claro que não se trata do Acontecimento Editorial do Ano, mas a presença dos viajantes deste blogue, que com os seus comentários e incentivos deram asas a este trabalho, é algo que me dará um enorme prazer!

Um Abraço Amigo do

Luís Mira

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO


s/editora indicada

É Hoje, Agora - O Meu Nome Liberdade

Deve haver neste disco um qualquer erro, já que na contracapa está indicada uma terceira canção, "Irei Contigo", que não descortinei no disco propriamente dito.

A ausência de "Irei Contigo" foi solucionada em 2008 na edição em CD de "Em Lugares Incertos".