quinta-feira, 14 de maio de 2020

ORANGE


VOGUE INT. 80279 edição francesa (1971)

Orange (Miguel Graça Moura/Fernando Matos) - Missão Impossível (F. Milano/A. D'Alco/L- Schifrin/arr Pop Five).

terça-feira, 12 de maio de 2020

MORREU ASTRID


Morreu hoje a fotógrafa alemã Astrid Kirchherr que tirou as primeiras fotos dos Beatles na Alemanha e lhes inventou o (não) corte de cabelo. Tinha 81 anos, a uma semana de fazer 82.

Foi companheira de Stu Sutcliff e também de Klaus Voorman, entre outros, se calhar.

Morreu de "doença curta e grave" não identificada.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

E CAPA AMARELA


Long Live Vinyl, 2019, 9,99 £

uma boa edição, digo eu, é claro!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

TO ELVIS, WITH LOVE


Os muros que ladeiam a casa de Elvis estão apinhados de mensagens dos seus fãs.

Da maneira como as mais recentes se sobrepõem, fiquei com a ideia de que todo o muro é lavado de
tempos a tempos para permitir novas levas de mensagens.

Aqui está uma respeitável senhora apanhada em pleno acto... Procurou, procurou e lá encontrou um
pedacinho onde escrever.

Comovente...

Cada um é como é e longe de mim censurar...

Deus sabe como sou fã de Gram Parsons e já andei a perseguir as suas memórias em todo o lado por onde caminhou, mas nunca me passaria pela cabeça deixar-lhe um bilhetinho...

Texto de Luís Mira

GRACELAND


I’m going to Graceland
Memphis, Tennessee
I’m going to Graceland
Poor boys and pilgrims with families
And we are going to Graceland
...........................................
...........................................
Ooh, ooh, ooh,
In Graceland, in Graceland
For reasons I cannot explain
There’s some part of me wants to see
Graceland

(Paul Simon – “Graceland”)

Paul Simon nasceu em 1941 e teria 13 anos quando Elvis Presley fez as suas primeiras gravações no “Sun Records”, em Memphis.

É natural, portanto, que sinta uma certa nostalgia em relação a Graceland, mesmo que não nos saiba explicar muito bem porquê.

Não é o meu caso.

Respeito a memória do Elvis e tudo o que ele representou para o surgimento de um novo tipo de música de que, muitos anos mais tarde, aprendi a gostar.

Também sei separar o trigo do joio, ou seja, as qualidades de Elvis, o cantor, das muitas vezes grotescas trapalhadas em que Elvis, o Homem, se viu envolvido ao longo da sua vida...

E se uma das primeiras músicas em língua inglesa que me lembro de ter gostado, em criança de 7 ou 8 anos, foi “Wooden Heart”, era preciso ter um coração de pedra para não ter ficado com um pouquinho do Elvis dentro de mim.

Mas isso não teria sido suficiente para me fazer voar para Memphis, Tennessee...

As memórias musicais que mais me aquecem o coração não habitam por aqui...

Mas também ir a Memphis sem passar por Graceland seria uma pura estupidez... E assim aconteceu.

Cheguei lá e – sacrilégio...!!! - acabei por não fazer a visita à casa.

Naquele lugar os cifrões giram à volta da nossa cabeça.

Não admira... É a casa mais visitada em todos os Estados Unidos da América.... Uma verdadeira máquina de fazer dinheiro!

Paga-se para ver o interior da casa, paga-se para ir ao “Meditation Garden”, onde se encontra o túmulo de Elvis, paga-se para ver a colecção de automóveis e de motas, paga-se para entrar nos dois aviões privados, eu sei lá... Só falta mesmo pagar para se poder respirar no interior...

Julgo que foi na “Estratégia da Aranha”, do Bertolucci, que ouvi ou li algo que me parece ter sido uma citação de Brecht e que dizia mais ou menos o seguinte: “felizes dos povos que não precisam dos seus heróis”.

Eu não tenho rigorosamente nada contra o facto de toda esta gente vir aqui em peregrinação saudar a memória do seu Herói.

Bem pelo contrário...

Ao inverso do que Brecht dizia em relação aos povos (mas ele falava num contexto político...), penso que no Cinema, na Literatura, na Música, em todas as Artes, em geral, infelizes daqueles que não têm os seus heróis e não sentem a necessidade de lhes prestar vassalagem.

Mas confesso que me incomoda bastante o cheiro a ganância que se sente no ar num lugar como este.

Fiz as contas por alto e uma curta visita não me ficaria por menos de 120 €...

Não sou forreta nem fundamentalista..... Seria uma vez na vida e em circunstâncias normais confesso que talvez me tentasse a ir, embora a Cristina me tivesse logo avisado que não estava nada p’raí virada.

Mas a casa encerrava às 17h00 e já passava das 16H00 quando lá chegámos. Teria de comprar o bilhete e apanhar um “bus” no outro lado da avenida, na zona onde estão os dois aviões privativos de Elvis, pelo que me restaria muito pouco tempo útil para a visita...

É claro que poderia lá ter ido no dia seguinte, mas se em circunstâncias normais já não consegui cumprir o programa que tinha estabelecido para dois dias em Memphis, se tivesse regressado a Graceland estava frito... É que se diz que isto fica em Memphis mas, na realidade, fica muitíssimo longe do centro da cidade.

Assim sendo, cheirei a propriedade por fora, li algumas das inscrições nos muros que a rodeiam, vi ao longe os dois aviões, o maior “Lisa Marie” e o mais pequeno “Hound Dog II”, comprei um catálogo para mim e algumas recordações para os amigos, e zarpei.

Mas não me despedi do Elvis para o resto da viagem porque, uma vez que iria andar lá por perto, ainda tinha previsto passar por Tupelo, no Mississippi, ver a casa onde ele nasceu, o que até se iria revelar bastante mais interessante, como na altura própria vos contarei.

PS:
Quem estiver interessado em dar uma olhadela ao interior da Casa não terá de ir a Graceland. Bastará ir ao YouTube....

Texto de Luís Mira

sábado, 25 de abril de 2020

POR QUEM OS SINOS DOBRAM


Uma vez, já não me lembro bem onde, li uma notícia que achei uma delícia...

Em Maranello, terra da Ferrari, o pároco da igreja tocava os sinos sempre que a equipa da casa ganhava uma corrida de Fórmula 1 e os “fieis” vinham a correr, trazendo o que tivessem à mão, e no adro da
igreja, todos juntos, faziam a festa.

Numa época em que a Igreja parece estar em quebra de simpatizantes (acredito que já esteve bem pior e que Francisco deu uma mãozinha...), isto seria uma boa maneira de arregimentar novos aderentes.

Imagino os sinos a ouvirem-se ao longe e os adeptos à saída da Luz, em vez de irem encher o Edmundo ou o Boa Esperança, a correrem como doidos em direção à Igreja de São Domingos de Benfica...

Não que de vez em quando não lhes ficasse bem acenderem uma velinha, mas não tenhamos ilusões.

Coisas destas só mesmo em Itália e com o “Cavallino Rampante”...

É verdade que sino não tem tocado muito nestes últimos anos. No ano passado só tocou três vezes, embora uma tenha sido pela vitória em Monza, o que para um italiano vale sempre muito mais, até
porque desde 2010 que tal não acontecia... Em 2018 (6) e 2017 (5) terá tocado mais vezes, mas a grande desilusão foi 2016, em que não tocou uma única vez, certamente que para grande desilusão do nosso
pároco, que terá perguntado a Deus porque lhe virou as costas...!

No que mais interessa, que são os títulos, o último Campeonato do Mundo por Equipas data de 2008, com Raikkonen e Massa, e o último piloto a sagrar-se Campeão do Mundo com um Ferrari foi Kimi
Raikkonen, em 2007.

Mas acreditem que mesmo com tão longa espera, a fúria dos “tiffosi” não esmoreceu. Basta ver como a pista de Monza fica inundada de adeptos no final de cada corrida de F1 que lá se realiza.

Andei por Maranello à procura de uma igreja e até vi duas, mas esta que vos mostro é a que mais perto se encontra das instalações da Ferrari, pelo que pode muito bem ser aqui que o pároco manifesta a sua
satisfação...

Aqui, como é natural, cheira a Ferrari por todos os lados. Nos cartazes nas ruas, nas montras das lojas, nas janelas dos edifícios, eu sei lá...

Numa zona mais afastada do Centro, numa larga rotunda, um imponente “cavallino rampante” anuncia a entrada nos terrenos da Ferrari, onde coincidem, lado a lado, parte das antigas e as modernas instalações
fabris.

O maior pitéu, para quem gosta de automóveis, é, sem dúvida, a “Galleria Ferrari”, o Museu Automóvel da Ferrari.

Lá estão alguns dos principais modelos “de estrada”, desde o primeiro, o 166 MM Barcheta, até às grandes bombas tipo F40 dos anos 90.

Mas o verdadeiro êxtase reservado para as salas dedicadas à competição.

Lá encontramos o primeiro Ferrari de Competição, o 125 S, de 1947, com o qual a Ferrari ganhou pela primeira vez em Le Mans, em 1949.

Lá estão os carros com que a “Scuderia” ganhou os seus primeiros Campeonatos de Pilotos, a começar com o Ferrari Tipo 500 com que Alberto Ascari ganhou os Campeonatos de 1952 e 1953, o D 50 com que
Juan-Manuel Fangio ganhou em 1956, e o 246 Dino que deu a Mike Hawthorn o campeonato em 1958, ano dramático para a Scuderia quando dois pilotos morreram em pista (Luigi Musso em França e Peter
Collins na Alemanha) e o próprio Hawthorn morreria num acidente de viação, poucos meses após o final da época.

Mas também lá estão outras preciosidades: o 156 F1 de 1961 que foi pilotado por Phil Hill, a primeira miniatura de um Ferrari que tive em criança, o 312 com que Niki Lauda foi campeão do Mundo em 1977
e que também foi conduzido pelo malogrado Gilles Villeneuve, e algumas das viaturas conduzidas por Schumacher entre 2000 e 2004, quando foi campeão em cinco anos consecutivos.

Le Mans, é claro, também não podia faltar e, entre outras, por lá vi um exemplar do 275 LM que foi o último carro da marca a vencer em la Sharte em 1965 e foi, também, a primeira miniatura à escala 1:24
que me lembro de ter tido...

Mas nem só de carros vive o Museu Ferrari...


Para quem se interessar pela vertente técnica da competição (não é muito o meu caso...), estão lá expostos motores de diferentes épocas, caixas de velocidade, jogos de suspensão, pneus e outras
componentes das viaturas.

Outro espaço que nos encanta é o dedicado ao equipamento dos pilotos: capacetes, fatos, luvas, botas, e quanta emoção não se sente ao ver os que pertenceram àqueles que partiram desta Vida cedo demais, como é o caso de Gilles Villeneuve, cujos equipamentos aqui vos mostro.

Para além de tudo isto há cartazes, recortes de jornais, filmes da época e outros suportes de informação alusivos à História da Ferrari.

13 € foi quanto me custou a entrada neste Museu, há 10 anos atrás. Nada caro, para tão grande prazer...

Perto da “Galleria”, um “Stand” da Ferrari com diversos modelos à porta convida-nos para um “Test-Drive”. Ainda pensei lá ir, mas rapidamente desisti. A minha conta bancária não chegaria, certamente, para o depósito de caução que teria de lá deixar...
É por isso que a Ferrari é um sonho!

Só de o cheirar, até um cego o quer guiar... Lembram-se da cena do Al Pacino no “Perfume de Mulher”...?

Mas o Al Pacino do filme era rico e inconsciente, e eu sou um teso consciente...

Virei costas desolado e pela avenida fora dei por mim a pensar para com os meus botões, como o outro o fazia, embora com uma tentação muito mais prosaica, em plena manifestação do 25 de Abril:

“Um Ferrari, assim, jamais será p’ra mim...! Um Ferrari, assim, jamais será p’ra mim...! Um Ferrari,
assim................................”

Texto de Luís Mira

GUIMARÃES


sexta-feira, 24 de abril de 2020

SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS – SAVANNAH, GEORGIA


Existe um preconceito que tende a considerar os americanos um povo primitivo e pouco iletrado, que
não tem uma relação com a Cultura – assim mesmo, com cê grande – como aquela que nós, europeus,
temos.

O que me oferece dizer é que, ao longo de quatro prolongadas viagens que já fiz pelos Estados Unidos da América, nunca me apercebi que a Cultura fosse tratada a pontapé. Bem pelo contrário...

Alguns dos melhores museus do Mundo estão na América, e não apenas em Nova Iorque, Washington, Los Angeles ou São Francisco, mas também em cidades mais pequenas.

O país dispõe de inúmeras organizações federais, estaduais e privadas de renome no domínio da Cultura.

A “Smithsonian”, por exemplo, é uma das mais prestigiadas a nível mundial.

É certo que a América não tem um património cultural de excelência como o da Europa, mas agarram-se com unhas e dentes ao que têm e preservam-no cuidadosamente.

Um exemplo desse património mais antigo que conheço relativamente bem são as velhas Missões
espanholas californianas do Séc. XVIII que existem entre San Francisco e San Diego, que vi num
excelente estado de conservação.

Em todos os Estados, grandes casas senhoriais do tempo colonial e dos primórdios da Independência,
inseridas nos seus espaços circundantes, foram preservadas e estão abertas aos visitantes.

Por todo o lado parques temáticos permitem-nos viajar no tempo e conhecer um pouco melhor a Cultura e as condições de vida das diversas gerações pioneiras, e dos próprios Índios, como vi em Natchez.

No que respeita às chamadas “belezas naturais”, elas são sobejamente conhecidas. São 62 Parques
Naturais Nacionais pouco tocados pelo Homem, de uma beleza de cortar a respiração, proporcionando inesquecíveis experiências de harmonia e de comunhão com a Natureza. E se pensarmos nos Parques Estaduais, este número aumenta consideravelmente...

Dir-me-ão que muitos desses espaços parecem ser demasiado destinados ao turismo... E Versailles, os
castelos do Loire, o Louvre, a Tate Gallery ou os Uffizi, não o são também...?

É verdade que, quando dela necessitamos, temos alguma dificuldade em encontrar uma boa livraria, mas isso parece um (mau...) ar dos tempos e não algo específico dos Estados Unidos...

As próprias cidades nem sempre são feitas de grandes arranha-céus. Existem verdadeiras “cidades-
museu”, como St. Augustine, Charleston, Natchez ou Savannah, para só vos referir aquelas que mais
recentemente visitei. E é um prazer passear pelas ruas dessas cidades e ver a diversidade de estilos que oferecem ao viajante, em edifícios muito antigos criteriosamente recuperados. Puxando a brasa à minha sardinha, não imaginam a maravilha que é encontrar, em excelente estado de conservação, velhas salas de Cinema centenárias em quase todos os lugares por onde passamos.

Quando paro defronte delas e as olho parecem querer falar comigo e contar-me as suas histórias... O
“glamour” que viveram nos tempos áureos, quando o Cinema era belo... As alegrias, as tristezas e os
dramas que deram a ver... O que riram, o que choraram, o que cantaram e dançaram, descalços no
parque, à chuva ou sobre as nuvens... A excitação da sala cheia e a agonia de vê-la vazia...

Parecem querer contar-me de tudo o que o vento já levou... Dos esplendores na relva, das condessas
descalças, de tudo o que o Céu permite, das lendas dos beijos perdidos, dos filhos da noite, dos rebeldes sem causa e de todos os que só Deus sabe quanto amaram...

Mas da história delas eu nada sei. Quando as vejo estão quase sempre fechadas e nem as entranhas lhes consigo vislumbrar... Só à noite, quando regresso ao quarto do hotel, posso ir à “net” tentar perceber por onde passei...

Com regularidade irei enviar-vos fotografias de algumas dessas Salas de Cinema, com informações acerca da sua história, nos casos em que as consegui obter.


E vamos começar hoje com o belíssimo “Lucas Theatre”, em Savannah, na Geórgia.

Foi mandado construir por um senhor chamado Arthur Lucas, abastado proprietário de uma grande cadeia de Salas de Teatro, e foi inaugurado, com pompa e circunstância, há quase 100 anos, no dia 26 de Dezembro de 1921. Foi uma sessão dupla, com a curta “Hard Luck”, com Buster Keaton, e “Camille” como filme principal, com a diva Alla Nazimova e o divo Rudolfo Valentino, realizado por um tal Ray C. Smallwood de que não reza a História.

À sua época, com 1237 lugares sentados, era o cineteatro mais luxuoso de Savannah e o primeiro a
possuir ar condicionado.

Resistiu durante mais de cinco décadas, mas em meados dos anos 70, com o enorme sucesso dos
primeiros “blockbusters” e a progressiva passagem do Cinema para as grandes superfícies comerciais
com as suas salas “multiplex”, foi obrigada a encerrar as suas portas, tal como sucedeu a muitas outras salas por esse Mundo fora. O último filme que passou foi “O Exorcista”.

Dez anos mais tarde foi criada uma associação não lucrativa – “The Lucas Theatre of the Arts” - que tinha como objectivo angariar fundos para a recuperação do edifício, o que ainda levaria muitos anos a concretizar.

Mas isto está tudo ligado, e um grande impulso para a recuperação acabou por ser dado por Clint
Eastwood ao fazer nessa sala, ainda em obras, a festa de encerramento das filmagens de “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, de que ainda há bem pouco vos falei, e ao doar à Associação os lucros
obtidos nesse evento.

A recuperação foi concluída e a nova abertura teve lugar no dia 1 de Dezembro de 2000, com “E Tudo o Vento Levou”, como não podia deixar de ser...

Hoje o “Lucas Theatre” é um espaço multifacetado.

A sua exploração é gerida pelo “Savannah College of Arts and Design”, que fica lá mesmo ao lado, e
promove a exibição de teatro clássico e de vanguarda, de eventos musicais variados e, naturalmente, de Cinema, com particular atenção na divulgação dos grandes clássicos do cinema americano.

É, igualmente, palco de realização de grandes festivais anuais, como o “Savannah Film Fest”, o
“Savannah Philharmonic” e o “Savannah Music Festival”.

Reabilitação conseguida com sucesso, portanto, o que nem sempre acontece nestes casos...

Mas não estaríamos em Savannah se não houvesse, pelo meio, uma história de fantasmas...

Há quem garanta que este teatro está assombrado, que se vêm estranhas sombras e se ouve bater palmas quando está vazio, e o “Lucas Theatre” é paragem obrigatória do “Ghost City Tours”...

Tudo terá acontecido em 1928, dizem, quando um grupo de “gangsters”, provavelmente porque o
proprietário do teatro não lhes pagou a “comissão”, avançou a tiro pelo meio de uma multidão em fila de espera e matou pelas costas o pobre empregado da bilheteira, que procurava fugir, quedando-se o seu fantasma para sempre nos corredores do teatro.

Parece que os jornais da época não registaram qualquer acontecimento parecido com este, mas já se sabe o que acontece na América quando a lenda se sobrepõe à realidade...

Mas eu gosto desta história...

Apetece-me é acrescentar-lhe outros fantasmas muito meus, aqueles que morreram nas mais belas mortes do Cinema...

Thomas Mitchel, apoiado por Cary Grant, a dar uma última passa no cigarro no “Only Angels Have
Wings”...

Louis Jourdan a deixar-se matar em duelo, depois de ter lido a carta de uma desconhecida...

Margaret Sullavan a abrir a janela e a roubar um último sopro de vida em “Three Comrades”...

O soldadinho de “A Time to Love and a Time to Die” a puxar pela última vez da carta que transportava bem junto ao coração e a vê-la fugir por entre as águas...

Sterling Hayden estendido sobre a relva com que tanto sonhara, com o cavalo a beijar-lhe a face, em “The Asphalt Jungle” James Mason a entrar no mar e a libertar, de vez, Mrs. Norman Maine, no “A Star is Born”, do Cukor, e Pandora a fazer o mesmo, por amor ao holandês voador...

Aqueles que os próprios fantasmas se encarregaram de vir buscar, como Mrs. Muir, Jeanette Macdonald no “Maytime” e o velho marido nas duas versões de “Smilin’ Through”...

E como fantasmas não escolhem antigas ou novas vagas, lá estará, também, o Belmondo de “A Bout de Soufle”, qual James Cagney dos tempos modernos, a ser baleado pelas costas e a andar aos esses pela rua fora antes de se estatelar no chão e levar o dedo aos lábios pela última vez, como Bogard...

E também por lá andarão aqueles que morreram de mãos dadas, como os amantes crucificados do
Mizoguchi, Joel McCrea e Virginia Mayo nesse tão belo e tão esquecido “Colorado Territory” ou
Jennifer Jones e Gregory Peck, depois de se destruírem mutuamente, no “Duel in the Sun”...

E ainda Helen Hayes nos braços de Gary Cooper, no “Farewell to Arms” do Borzage, naquela que hoje me apetece dizer que é a mais bela morte no Cinema...

E como os anjos também serão admitidos, não faltará por lá aquele que tão galhardamente ganhou as
suas asas ao levar James Stewart a perceber que a Vida é, na verdade, uma coisa Maravilhosa...

Tanta e tão boa gente que nos encantou e emocionou ao longo da Vida lá deve estar...

Porque talvez que o Cinema não passe disso mesmo: bons fantasmas que povoam o nosso imaginário e nos ajudam a viver...

E é por isso que me comove sempre tanto ver um velho Cinema ainda vivo...

Texto de Luís Mira

24 DE ABRIL


terça-feira, 21 de abril de 2020

MORREU FUNDADOR RADIO CAROLINE


Morreu o fundador da Radio Caroline, Ronan O'Railly. Tinha 79 anos.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

JOSÉ AFONSO NO FESTIVAL DA CANÇÃO


Em 1969, José Afonso participou, sem sucesso, no Festival RTP da Canção com "Vejam Bem".

Fonte: Rui Pato.

sábado, 11 de abril de 2020

DANCE


ALVORADA - MEP 60251

Fado Gingão (Moniz Trindade) - Por Causa De Você (António Carlos Jobim/Dolores Duran) - Júlia (Capotosti/Gentile) - Lisbona Mia (Marino Marini)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

"FIM DOS BEATLES" EM PORTUGAL


O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conseguiu dar a notícia do "fim dos Beatles" no próprio dia, com base num telegrama da Reuter.

OS BEATLES NÃO ACABARAM


Luís Pinheiro de Almeida *

Os Beatles separaram-se há 50 anos, mas não acabaram.

Como?

Os portugueses têm ditos que se enquadram perfeitamente: “o que tem de ser, tem muita força” e/ou “não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe” (este último com cabimento, também, na presente situação mundial).

Por mim, adopto a fórmula mais simples: “os Beatles separaram-se, porque sim!”.

Mutatis mutandis, começa-se a morrer logo que se nasce. Os Beatles não foram excepção, até porque logo no parto se poderia pressentir (é fácil dizer isso agora) que um conjunto de quatro génios iria dar em torto.

Enquanto não deu, os Beatles tiveram uma carreira fulgurante, inigualável, inovadora, pioneira em quase tudo. Só me lembro de duas coisas em que não foram pioneiros: primeiro álbum duplo e primeiro concerto em telhado, honras que pertenceram a Frank Zappa e a Roberto Carlos.

Eis uma pequena noção do que os Beatles foram capazes em apenas 8 anos de carreira (1962-1970):

Primeiros a ter um álbum classificado no top britânico de singles com “With The Beatles” (7º lugar em 1963)
Primeiros a conseguir um milhão de pré-encomendas de discos na Grã-Bretanha com “I Want To Hold Your Hand” (1963)
Primeiros a substituirem-se a si próprios no primeiro lugar do top britânico de singles com “I Want To Hold Your Hand” e “She Loves You” (1963)
Primeiros artistas britânicos a conquistar os Estados Unidos (1964)
Primeiros a ocupar os cinco primeiros lugares no top norte-americano com “Twist And Shout”, “Can’t Buy Me Love”, “She Loves You”, “I Want To Hold Your Hand” e “Please Please Me”, em Março de 1964
Primeiros artistas nos primeiros lugares simultâneos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos com “Can’t Buy Me Love” (1964)
Primeiro feedback da música em “I Feel Fine” (1964)
Primeira capa de álbum gatefold com “Beatles For Sale” (1964)
Primeiro fade-in numa canção em “Eight Days A Week” (1964)
Primeiros a usar guitarra wah-wah em “I Need You” (1965)
Primeiro grupo a actuar num estádio (She Stadium, Nova Iorque, 15 de Agosto de 1965)
Primeiro double A side com “Day Tripper/We Can Work It Out” (1965)
Primeiros artistas a realizar videos de promoção com “Day Tripper/We Can Work It Out” (1965)
Primeiros a ser condecorados pela Raínha (MBE)
Primeiro instrumento indiano (cítara) na música pop em “Norwegian Wood” (1965)
Primeira gravação com backwards em “Tomorrow Never Knows” (1966)
Primeiros a utilizar ADT (Automatic Double Tracking) nas gravações
Primeiro grupo a usar o mellotron em “Strawberry Fields Forever” (1967)
Primeiro álbum conceptual com “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967)
Primeiro álbum com as letras impressas na capa em “Sgt Pepper’s” (1967)
Primeiro álbum com canções sem intervalo com “Sgt Pepper’s” (1967)
Primeiro álbum com extras (desenhos, etc) em “Sgt Pepper’s” (1967)
Primeira capa interior protectora do disco a cores em “Sgt Pepper’s” (1967)
Primeiro som inaudível para humanos em “Sgt. Pepper’s” (1967)
Primeiro álbum com loop no fim de “Sgt Pepper” (1967)
Primeira canção em directo para todo o Mundo via televisão com “All You Need Is Love (25 de Junho de 1967)
Primeiro grupo a ter a sua própria loja (“The Apple Boutique”, 07 de Dezembro de 1967)
Primeiros artistas a editar um duplo EP com “Magical Mystery Tour” (1968)
Primeiro grupo com etiqueta própria (Apple, 1968)
Primeiro single com mais de 7 minutos com “Hey Jude” (1968)
Primeiro fade-out longo, de 4 minutos, em “Hey Jude” (1968)
Primeiro álbum duplo de grupo com "The Beatles" (1968)
Primeiro álbum com abertura superior com “The Beatles” (1968)
Primeira capa sem nome e sem artista com “Abbey Road” (1969)
Primeira faixa escondida com “Her Majesty” em “Abbey Road” (1969)
Primeiro grupo com livro com as letras das canções (“Illustrated Lyrics”, 1969)
Primeiro álbum com caixa e livro com “Let It Be” (1970)
Primeiros artistas com 12 consecutivos números um no top britânico de singles
Primeiros artistas com 11 consecutivos números um no top britânico de álbuns (aliás a totalidade da sua discografia oficial)

Tudo era virgem para os Beatles , um mar de rosas à sua volta: fama, dinheiro, mulheres… o que se possa imaginar! Um dia – que não foi um dia, mas vários – o paraíso estourou!

Tudo terá começado em consequência da fama que os próprios Beatles geraram. De início, tudo era muito bonito e proveitoso. Com alguma graça, dizia Lennon para McCartney: “vamos lá compor mais uma piscina!”.

Em 1965, John Lennon já cantava “Help!”, em desespero, e em 1966, escassos 4 anos após o início da brilhante carreira discográfica, os Beatles desistiram de tocar ao vivo. “Para quê? Nem nos ouvimos a nós próprios. Às vezes até só mexemos os lábios, mas as pessoas pensavam na mesma que estávamos a cantar!”.

O momento foi aproveitado (ou provocado?) para os Beatles dedicarem mais tempo ao estúdio, com novas sonoridades, novas técnicas de gravação, que eles próprios iam descobrindo, novos instrumentos que também eles iam experimentando.

É a altura em que os génios individuais começam a despontar, primeiro, insipidamente, em “Revolver”, depois, mas encapotadamente, em “Sgt Pepper” para finalmente explodir em “The Beatles”, no que foi um processo gradual.

No ano seguinte, em 1967, há a machadada que se pode considerar fatal: a morte de Brian Epstein.

No círculo dos militantes  dos Beatles há um desporto favorito que eu, todavia, considero abusivo: “quem é o 5º Beatle?”. Os Beatles eram 4 e ponto final! Admito que se possa considerar quem foi, depois, o mais próximo deles. George Martin? Brian Epstein? Só para citar “os do costume”. George Martin, é verdade, foi o que melhor interpretou as ideias dos músicos, mas Brian Epstein foi quem melhor os compreendeu e melhor os orientou desde que ouviu falar de “um conjunto que tocava em Hamburgo”.  E agora vou dizer o que, para muitos, será uma indignidade: fê-lo por ser homossexual.
Mas Brian teve esse excepcional condão de os manter unidos.

O primeiro grito do Ipiranga, na senda de “Help!”, terá sido o de John Lennon, depois seguido por George Harrison e Ringo Starr, “arrufos de namorados”, que não foram tomados muito a sério!

O verdadeiro divórcio – foi assim, aliás, que o próprio o classificou – surgiu com Paul McCartney e a publicação do seu primeiro álbum a solo, “McCartney”.

McCartney foi sempre o grande marketeer dos Beatles e não deixou de aproveitar esta oportunidade para fazer “dois em um”: promover o seu próprio álbum a solo, com uma notícia de manchete, “o fim dos Beatles” – Daily Mirror, 10 de Abril de 1970, e, simultaneamente, sair dos Beatles pela porta grande, onde, aliás, já se considerava “desconfortável”, até por considerações familiares.

“A culpa não é de Yoko”, qual carapuça, longe disso! As coisas aconteceram assim, porque tinham de acontecer!

Paul McCartney achou por bem deixar os Beatles quando os três restantes companheiros optaram por Allen Klein para tomar conta dos seus negócios em detrimento do seu cunhado John Eastman.

Foi o estoiro!

Estoiro que tinha de acontecer, de uma maneira ou de outra!

O canto do cisne – mas que “canto”! – foi “Abbey Road” e ponto final! É a História e, do meu ponto de vista, um final de história bem feliz!

Mas os Beatles não acabaram! Não é por acaso que estamos hoje ainda a falar deles, meio século depois de terem “acabado”, com novas gerações a idolatrá-los e a musicá-los como outrora, como documenta, e bem, por exemplo, o portuguesíssimo Fast Eddie Nelson, o “Beatle do Barreiro”, honra lhe seja feita!..

*com Teresa Lage e Paulo Marques

MARÉ DE BEATLES...


ODEON - SOE 3755 - edição francesa

Já que estamos em maré de Beatles, ei-los na maré, em Miami (1964).

Foto de Dezo Hoffmann.

FOI HÁ 50 ANOS!


Faz hoje, 10 de Abril, 50 anos que os Beatles se separaram. Pelo menos, é o que está convencionado!
Quis o destino que, por essa altura, mais coisa menos coisa, estava em Londres em férias da Páscoa, cujo Domingo foi a 29 de Março.

Nessa minha primeira viagem de avião, organizada pelo SIAEIST (Turismo Universitário), estive em Paris e em Londres de 17 a 30 de Março, 11 dias antes do Daily Mirror, mensageiro da separação que saiu a 10 de Abril, uma sexta-feira, uma semana antes da edição do álbum de estreia a solo de Paul McCartney, “McCartney”.

Não apanhei o jornal, claro, mas a sorte (que dá trabalho!) tinha-me levado a comprar no dia 28 de Março, no famoso Chelsea Drugstore, em King’s Road, o último single dos Beatles, “Let It Be” (ver imagem), que tinha sido publicado a 06 de Março, com “You Know My Name (Look Up The Number)” no lado B, uma das músicas dos Beatles de que mais gosto.

Essas minhas férias londrinas têm muitas histórias (assisti à gravação do LP “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso, jantei com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luís Colaço e José Labaredas, etc, etc), mas no que ainda aos Beatles diz respeito, vi um beatle pela primeira vez em carne e osso, John Lennon, no palco de um festival anti-nuclear em Chalkfarm, mas sem cantar. Acompanhava apenas Yoko Ono.

LPA

quinta-feira, 9 de abril de 2020

ANDREA TOSI


CIRCUS - CEX A 303 - edição italiana

Pepe - L'Immensitá - Pomodoro Cha Cha Cha - Riccordati De Me

Vi-os ao vivo, em Coimbra, em 1961, na Queima das Fitas.

JOSÉ JORGE LETRIA


TOMA LÁ DISCO - TLS 021 - 1979

Canção de Jornada - Que Horas Serão?

Letra e música de José Jorge Letria, Fernando Tordo nos coros e Victor Mamede na bateria.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

LOVE IS A TRAVELER ON THE RIVER OF NO RETURN


“Rio Sem Regresso” (Otto Preminger – 1954) é um filme que parece não ter deixado grandes saudades a quem o fez...

Marilyn Monroe tinha os caprichos que se conhecem, Robert Mitchum o mau feitio que se sabe, e Preminger também tinha a fama de ser um realizador com quem nem sempre era fácil trabalhar.

Mistura explosiva, portanto, e todos trataram de esquecer rapidamente o filme. Parece que Bob Mitchum nem queria sequer ouvir falar nele e chamava-lhe “the picture of no return”...

Curiosamente, nada disto transparece no filme, que aos meus olhos é um filme sereno, com a beleza telúrica daquelas magníficas paisagens das “Rocky Mountains” canadianas, tudo isto em Cinemascope e com uma bela fotografia de Joseph LaShelle.

Apesar de alguns perigos (os índios, os “rápidos”, os “maus” que não são índios,...), o filme desenrola-se serenamente, por entre as montanhas e ao sabor do rio, desaguando naquele inesquecível happy end do Mitchum com a Marilyn às costas, que todos nós desejávamos que acontecesse...!

E de todos os filmes de Marilyn, “Rio sem Regresso” é um daqueles onde mais gosto de a ver.

Sinto vontade de rever, de vez em quando, aquela cena onde, tão bonita e tão serena, guarda num saco os sapatos altos vermelhos, símbolo de um passado que desejaria encerrar para sempre, veste a camisa, ajeita os cabelos, desaperta o cinto, põe as fraldas para dentro, puxa da guitarra e canta para o miúdo “Down in the Meadow”, como quem embala nos braços, ternamente, a criança que sempre desejou mas que nunca conseguiu ter.

O filme foi realizado aqui, nos arredores da bonita cidade de Banff, no Canadá.

Onde vêm as quedas de água, o operador de câmara teve muito cuidado em ocultar tudo quanto era urbanismo e modernidade, que fatalmente apareceriam na imagem se descaísse a câmara um pouco mais para a direita, ou para a esquerda...

Mas o rio atravessa um enorme Parque Nacional, pelo que grande parte dos espaços permanecem livres e selvagens.

Parei num deles para fazermos um piquenique.

Sentei-me junto ao rio, pousei nele o olhar e o pensamento e deixei-me levar pelas águas...

There is a river, called the river of no return
Sometimes it’s peacefull and sometimes wild and free
Love is a traveler on the river of no return
Swept on forever to be lost in a stormy sea (wail-a-ree...)
I can hear the river call (no return, no return, ...)

Texto de Luís Mira

terça-feira, 31 de março de 2020

LAKE LOUISE


In the blue Canadian Rockies
Spring is silent through the trees
And the golden poppies are bloming
‘Round the banks of Lake Louise

Gram Parsons com os Byrds

EDIÇÃO DA RDA


AMIGA - 4 56 103 - edição da RDA

Grândola, Vila Morena - Natal dos Mendigos

duas gravações ao vivo da 5ª edição do "Festival des politischen Liedes".

EDIÇÃO NEERLANDESA


NEGRAM - NG 188 - edição Países Baixos

Page One - Aria

Produção de Fernando Matos

segunda-feira, 30 de março de 2020

HANK WILLIAMS - OS FILMES


Se Hank Williams não teve sorte em muitas coisas na vida, o certo é que também a não teve no que toca aos filmes que sobre ela se debruçaram.

Que eu saiba existem três, um de 1964 e os restantes dois bastante mais recentes. Nenhum deles teve
estreia comercial em Portugal, embora em relação ao primeiro não o possa afirmar com absoluta
certeza...

“I Saw the Light”, realizado em 2016 por Marc Abraham com Todd Hiddleston como protagonista, não teve direito a estreia comercial mas passou há um ano e picos nos canais Telecine.

Para mim é o melhor dos três, embora longe de poder honrar devidamente a memória de Hank Williams.

O narrador do filme é o produtor e compositor Fred Rose, que foi o grande impulsionador da carreira de Hank, e tudo se passa em “flashback”. Começa com o casamento na tal bomba de gasolina da Texaco, e depois revisita os momentos mais relevantes da sua carreira. Neste aspecto, é o mais fidedigno dos três filmes, embora se arraste demasiado na relação de Hank com a mulher, Audrey, para depois meter a martelo o “downfall” de Hank de forma muito pouco credível.

A música do filme é interpretada pelo próprio actor Todd Hiddleston, com o apoio de uma banda, The
Saddle Spring Boys. Não é má e não é por ela que o gato vai às filhoses...

“The Last Ride”, realizado em 2011 por Harry Tomason com Henry Thomas como protagonista debruça-se, tal como o próprio nome indica, sobre os dois últimos dias da vida de Hank Williams.

Mas mais valia que se tivesse dito que o filme era “inspirado em...”, tal a distorção que é feita em relação à realidade dos factos, incluindo o trajecto da própria viagem...

O filme, que não deixa de ser simpático se nos esquecermos de Hank Williams, não pretende ser mais do que a história de uma amizade que em pouco tempo se desenvolve entre quem conduz a viatura e quem vai no banco traseiro. Mas, entre outras coisas, não consta que Charlie Carr tenha encontrado a mulher da sua vida durante essa curta viagem nem, muitos menos, que Hank Williams lhe tenha deixado as chaves do belo Chevrolet azul claro como herança...!

A música não se faz sentir muito durante o filme, mas foi editado o CD com o suposto “soundtrack” no qual, entre outros intérpretes, aparece a filha de Hank, Jett Williams.

Para o fim reservei-os o pior...

“Your Cheatin’ Heart” foi realizado em 1964 por Gene Nelson e tem George Hamilton como
protagonista.

É o único dos três filmes que, embora muito brevemente, evoca a infância de Hank, quando ele andava com uma caixa de engraxar sapatos aos ombros para ganhar uns cobres e a aprender música com Rufus “Tee-Tot” Payne. Mas é um filme sem ponta por onde se lhe pegue, que se borrifa na verdade dos factos, faz de Hank um pobre pateta e não tem outro objetivo senão meter uma música a martelo de cinco em cinco minutos.

O melhor do filme ainda consegue ser a música, interpretada pelo filho de Hank, Hank Williams Jr.

Mas perdoe-se ao rapaz o ter participado neste objecto ultrajante para a memória do seu pai, porque o pobre miúdo não tinha, na altura, mais do que 15 anos de idade...

A culpa deste desastre não é tanto do actor e realizador Gene Nelson mas, sobretudo, do produtor Sam Katzman que, depois de ter deixado o seu nome ligado a alguns curiosos filmes de ficção-científica de série B nos anos 50, descobriu o filão dos teenagers nos anos 60 e encadeou, com a MGM, uma série de banais filmes musicais com os ídolos da adolescência (Elvis, Roy Orbison, Johnny Cash e até Astrud Gilberto e os Herman’s Hermits...), todos eles de muito baixo orçamento, mas que lhe deram a ganhar rios de dinheiro.

Gente deste calibre não morre em quartos de hotel, a não ser em trabalhos de esforço com uma ou duas boas companhias... E, muito menos, no banco traseiro de um automóvel, com a cabeça encostada à janela...

Morre em Hollywood ou em Miami. Refastelados à beira de uma piscina, calções, uma camisa berrante com palmeiras e florzinhas, um boné à Trump na cabeça e um último cocktail colorido na mesinha do lado...

PS:
Não vos envio capa de “I Saw the Light” porque, como vos disse, a minha cópia foi sacada da TV

Texto de Luís Mira

quarta-feira, 25 de março de 2020

SAM SHEPARD – MR. WILLIAMS


No seu livro de crónicas de viagem “Days Out of Days” (2010), que na minha edição francesa se chama “Chroniques des Jours Enfuis”, Sam Shepard tem um texto acerca da morte de Hank Williams.

Não é das melhores peças saídas da mão do autor de “Crónicas Americanas”, mas tem a enorme vantagem de se poder juntar a nós à conversa, como que aderindo à versão da morte no hotel.

Nessa crónica a história é contada através do porteiro do hotel, que jura ter visto Mr. Williams morto e bem morto... Morto e rígido como uma estaca... E terá sido o médico, com a injecção que lhe deu, quem o matou...

Mas vestiram-no assim mesmo...

Um fatinho azul claro.

Uma camisa de um branco imaculado.

Uma gravata amarela com uma pequena palmeira bordada a meio.

Botas de um preto cintilante, com pequenas guitarras e notas de música encrostadas.

E um chapéu Stetson branco creme bem enfiado na cabeça.

Arrastaram-no assim até ao carro, o “chauffeur” de um lado, o porteiro do outro.

Ao atravessarem o “hall” de entrada o rececionista meteu-se com eles, perguntando se Mr. Williams não teria bebido um copito a mais...

Mas o mais estranho, conta ele, é que, apesar de morto, um estranho ruído rouco saia da boca de Mr. Williams, como um impercetível som de folhas levadas pelo vento. O murmúrio da morte, certamente, o último pedaço de ar que se escapa do corpo...

Vê-se tanta coisa quando se é porteiro de um hotel, mas uma destas nunca antes tinha visto.

Um som terrível, de facto.

Estranha coisa esta um homem que passou a sua vida inteira a cantar como um pássaro sublime, acabar os seus dias com um som como este...

Texto de Luís Mira

terça-feira, 24 de março de 2020

ANDREW JACKSON HOTEL, KNOXVILLE


Na autoestrada 40 a caminho de Nashville, onde nos esperava um concerto do Gordon Lightfoot no
Ryman, fiz um pequeno desvio para Knoxville, como tinha previsto.

Quando cheguei ao centro da cidade estava aflito para ir à casa de banho e meti o carro no primeiro
parque de estacionamento que encontrei. Era uma espécie de Posto Turístico que servia, também, de
Receção para visita à casa de um importante general lá da terra que havia participado na Guerra da
Secessão.

Entrei por ali adentro a correr em direcção ao WC e à saída fui falar com o empregado que se encontrava ao balcão. Por sorte era o dia de encerramento da casa do general e safei-me comprando dois ou três postais.

Porque tinha de alimentar a conversa, perguntei-lhe o que já muito bem sabia, isto é, se aquele grande
edifício que ficava ali atrás, “Andrew Jackson Building”, era o antigo “Andrew Jackson Hotel” onde
Hank Williams tinha passado a sua última noite antes de morrer.

A sua resposta foi: “That depends on the story you believe in... “

Sorri-lhe e percebi que, como era natural, ele sabia do que estava a falar.... É que há várias versões acerca da morte de Hank Williams.

Mas façamos um “flashback” e contemos a história do princípio.

Já tínhamos visto que naquele malvado ano de 1952, Hank Williams estava de rastos.

Tinha-se divorciado e casado quase logo de seguida com outra mulher, por pura vingança, decerto...
Andava ou tinha andado envolvido com uma outra mulher, de quem esperava um filho.

Tinha sido expulso do “Grand Ole Opry” e das outras principais estações de rádio em que participava, etinha também visto ser cancelada a sua ligação a um produtor tão influente como já era, na altura, Fred Rose.

A sua saúde ia de mal a pior, já que uma grande queda dada no ano anterior, quando caçava na companhia de um amigo, lhe tinha agravado o seu problema das costas e só a dose conjunta de medicamentos e álcool lhe atenuava as dores. Envolveu-se, na altura, com um charlatão que se dizia médico altamente graduado, o qual lhe prometeu milagres na cura da sua doença, mas à custa de morfina e outras drogas afins.

Embora Hank Williams não ligasse patavina ao dinheiro, de finanças também não deveria andar muito bem porque o divórcio saíra-lhe caro: a mulher ficara com a custódia do filho, com a casa e com metade dos seus futuros “royalties”, enquanto não se voltasse a casar.

Também devido a isso, tinha recomeçado a actuar nos “honky-tonks” à volta de Montgomery, actuações essas que não raro acabavam em cenas de pancadaria quando alguém lhe mandava uma “boca” mais inconveniente.

Mas Hank não se deixava abater e tinha, para já, conseguido dois novos espetáculos para fim do ano, um em Charleston, a 31 de Dezembro, e outro em Canton, no Ohio, a 1 de Janeiro.

Por essa altura do ano o tempo estava péssimo no Sul dos Estados Unidos, e gorara-se a possibilidade de fazer viagens de avião.


Hank lembrou-se, então, do filho de um conhecido seu que tinha uma empresa de táxis, que por vezes encontrava a fazer biscates numa bomba de gasolina, onde nunca deixava de elogiar o seu vistoso Cadillac azul claro. Perguntou ao rapaz se estava preparado para ser seu motorista numa viagem de ida e volta ao Ohio, o rapaz respondeu-lhe que era um verdadeiro às do volante e foi contratado na hora. Tinha 17 anos de idade...

O rapaz chamava-se Charlie Carr e a partir daqui o que vos conto foi o que o próprio Carr contou, muitos anos depois...

Hank e Carr meteram-se à estrada em Montgomery às 13h00 do dia 30 de Dezembro de 1952, com a
certeza de irem encontrar, para além da chuva, muito gelo e até neve pelo caminho. Para o aquecer na
viagem Hank ia preparado com seis “packs” de cerveja Falstaff...

Hank ia animado no início da viagem, cantando e contando anedotas e metendo-se com o miúdo por este não saber quem cantava, na rádio, “Jambalaya”...

A primeira parte da viagem não foi muito comprida, porque dormiram em Birmingham, a menos de 200 km de distância. Mas sairiam de madrugada no dia seguinte.

Em Chattanooga, no Tenessee, já nevava e Hank percebeu que a única alternativa que lhe restava para
poder chegar a horas a Charleston era ir a Knoxville apanhar um avião, o que conseguiu fazer.

O avião levantou voo às 15h00 do dia 31, mas o tempo estava de tal maneira mau que teve de fazer meia volta e regressar à base. De novo em Knoxville dirigiram-se ao hotel “Andrew Jackson”, onde se instalaram no quarto no 17.

Entretanto, o estado de saúde de Hank Williams piorara pelos motivos do costume: álcool misturado com drogas, já que Hank despachara rapidamente as cervejas que levara e já tinha comprado uma garrafa de bourbon no caminho. Não parava de tossir...

Na sua inexperiência, o jovem Carr começava a ficar assustado. Falou com o representante de Williams, o qual lhe deu instruções para chamar de imediato um médico, mas que, custasse o que custasse, levasse Hank até Clanton para o espectáculo do dia seguinte, sob pena de ter de pagar uma pesada indemnização ao promotor do concerto e pôr em risco a possibilidade de futuros contratos. Mas, para o conseguirem, teriam de sair de imediato e fazer a viagem de noite Hank pouco comeu. Soluçava muito e tinha dificuldade em engolir.

O médico deu-lhe uma injeção de vitamina B12 com morfina, e Hank dormiu vestido em cima da cama até às 22h00.

Pelas 22h45 abandonaram o hotel e Hank teve de sair de cadeira de rodas, ajudado pelos porteiros do
hotel, mas entrou no carro pelo seu próprio pé, garante Carr. Taparam-no com uma manta, para o proteger do frio.

Mas o tempo piorara e não se podia andar depressa. Carr fazia o que podia numa estrada coberta de gelo e, após uma ultrapassagem, quase foi acabar em cima de um carro-patrulha que estava à beira da estrada.

Uma ida à esquadra, uma multa, perda de tempo, maior nervosismo...

Numa bomba de gasolina perto de Bristol, Carr parou para comer uma bucha e perguntou a Hank se
queria comer alguma coisa. Este saiu para desentorpecer as pernas e disse que não queria nada, a não ser dormir... Terão sido as suas últimas palavras.

Umas horas depois Carr começou a achar estranho a ausência de ruído no banco traseiro. Parou para
ver... Hank estava dobrado sobre o banco da frente, de mão no peito... O seu corpo já estava hirto.
Na primeira bomba de gasolina que encontrou perguntou por um hospital. Uma tabuleta, nas
proximidades, indicava Oak Hill, West Virginia...

O diagnóstico médico foi paragem do coração por enfarte. Parece que a hora não foi rigorosamente
determinada, mas raiava a manhã do dia 1 de Janeiro de 1953.

No banco traseiro do carro foram encontradas garrafas, embalagens de medicamentos e vários papeis
soltos com letras de canções, algumas delas inacabadas.

Hank Williams, o cantor do sofrimento, da tristeza e da solidão, morria sozinho no banco traseiro de um automóvel, de cabeça encostada à janela, tendo como única companhia uma garrafa e um frasco de comprimidos...

Imagino-o nos seus últimos momentos a ver a neve cair sobre os ramos das árvores, os reflexos dos faróis na estrada molhada... E aposto que, dentro de si, ainda terá escrito uma nova e última canção...
Naqueles tempos a informação não corria com a rapidez de hoje, e a sala do “Canton Memorial
Auditorium” estava apinhada de gente ansiando pelo início do espectáculo, sem sequer sonhar com o que se passava...

Tim Hardin contou-o à sua maneira:

The chauffeur steered the car that night
To the town next in line to the show
With his name and date in lights
And the people with tickets to go
Hardly nobody knew that night how soon they’d be crying
Hardly nobody knew that night Hank williams was dying

Quando um elemento da organização subiu ao palco para informar o que se passava, as pessoas na
assistência começaram por se rir, pensando que se tratava de uma brincadeira para justificar mais uma das habituais faltas de comparência de Hank...

Mas a banda de apoio e todos os que se encontravam no palco deram os braços e começaram a cantar em coro “I Saw the Light”, uma “gospel song” que parece ser de tempos longínquos, mas que Hank
Williams” escrevera em 1946... A assistência compreendeu então a triste notícia, ergueu-se das suas
cadeiras e todos cantaram em coro:

I saw the light, I saw the light
No more dakness, no more night
Now I’m só happy, no sorrow in sight
Praise the Lord, I saw the light!

Desejo sinceramente que, algures a meio do caminho, a tenha mesmo visto...

PS 1:
A história de Carr é considerada a mais credível, mas existem, pelo menos, mais duas versões.
Uma, em que muito boa gente acredita, é que terá morrido no quarto do hotel, na sequência do violento “shot” de morfina que o médico lhe deu. Nem o médico nem a Gerência do hotel se queriam ver envolvidos nessa embrulhada, e Carr terá recebido bom dinheiro para se calar... De facto, para além das declarações que teve de prestar à Polícia no momento, Carr nunca abordou publicamente o assunto durante décadas, apenas o tendo feito já nos seus últimos anos de vida, sem alterar uma vírgula à sua versão inicial.

Uma terceira versão, mais fantasiosa e muito pouco credível, é que Hank terá sido alvo de um ajuste de contas devido a esquemas obscuros de tráfego de drogas em que estaria envolvido, não para negociar, mas para assegurar o seu stock . Poucos dias antes da viagem, Hank envolvera-se em mais uma cena de pancadaria num bar de Montgomery. O seu corpo ainda tinha escoriações dessa rija, o que levantou suspeitas e alimentou especulações. Carr não se teria apercebido de nada ou, então, teria sido seriamente ameaçado de morte se contasse alguma coisa...

PS 2:
A minha memória está uma desgraça...
Ia jurar que tinha comprado, no Museu Hank Williams de Montgomery (de onde provêm as fotografias do Cadillac azul que vos mostro, emprestado ao museu pelo filho de Hank) um suplemento de um jornal da terra onde Carr, já velhote, contava com muito detalhe a sua história. Não o encontrei...
Em contrapartida, disse-vos que não tinha nenhum livro acerca de Hank Williams, e menti... Ainda no museu comprei este opúsculo de 40 páginas que agora me lembro de ter lido no voo de regresso.
Arrumei-o e nunca mais de lembrei dele.
Mas a história de Charlie Carr encontra-se facilmente na Net.

PS 3:
Sam Shepard, num dos seus livros de crónicas de vagens, tem um curioso texto acerca da morte de Hank Williams. Para não vos sobrecarregar, deixarei isso para depois...

Texto de Luís Mira