
Faz 35 anos que morreu Gram Parsons (19 de Setembro de 1973). Tinha então quase 27 anos, idade fatídica para uma "Rock Star", como se sabe.
Na música, há gente de quem sou muito próximo, às vezes sem saber muito bem porquê... Questão de sensibilidades, qualquer coisa que um dia nos tocou muito fundo e nunca mais saiu cá de dentro...
Uma dessas pessoas é Gram Parsons.
Razões objectivas para gostar dele, são muitas:
- Na primeira metade dos anos 60, GP andou pela cena "folk" de Greenwich Village, a solo, e com um grupo que se chamava "The Shilohs". É sabido que eu gosto muito desses tempos e dessas músicas... Numa época e num espaço fortemente dominado pelo "Deus Dylan", GP optou por deixar para a posteridade uma série de interpretações de músicas, não de Dylan, mas de outros autores então menos conhecidos, como Tom Paxton, Tim Hardin, Fred Neil, Buffy Sainte-Marie, todos meus "amigos do peito", no que considero ter sido uma enorme prova de sensibilidade e bom gosto da sua parte;
- GP deu a mão e trouxe para a ribalta uma menininha muito tímida de seu nome Emmy Lou Harris (no início era mesmo assim, separado...), que também tinha passado pelos mesmos cafés da Village à procura de um rumo e de um estilo próprio e que acabou por se impôr cantando com Parsons, as canções de Parsons e no estilo de Parsons. E eu também sempre gostei muito dessa menina, que vi crescer até se tornar, hoje, uma respeitável Senhora com os adoráveis cabelos côr de cinza...;
- GP deu voz a muitas das minhas canções favoritas, daquelas que levaria na mala, sem sombra de hesitação, para a tal ilha deserta: "Love Hurts", "Brass Buttons", "A Song for You", "Drug Store Truck Drivin' Man", "Hearts on Fire", "Sleepless Nights" e tantas, tantas outras... Mesmo quando não foi ele o autor original, as suas interpretações são, quase sempre, insuperáveis;
- Finalmente, e para abreviar, GP deu uma forte contribuição para a "invenção" do "Country Rock", de que também tanto gosto, através desse "álbum Bíblia" do género que é "Sweetheart Of The Rodeo", dos Byrds. Mas já antes dos Byrds, ele tinha desbravado esse caminho com um grupo chamado "The International Submarine Band" e depois dos Byrds continuaria nessa via com grupos como "The Flying Burrito Brothers" ou "The Fallen Angels".
A propósito destes últimos, se uma qualquer lâmpada de Aladino me desse a possibilidade de recuar no tempo e assistir a um concerto "Pop Rock" à minha escolha (mas só um...), não escolheria Woodstock, nem Bangladesh, nem Monterrey, nem a Ilha de Wight nem a despedida dos The Band, nem nada em que possam pensar... Escolheria um dos últimos concertos da vida do GP, com os Fallen Angels e a Emmylou Harris (agora já com o nome junto...). Se possível, o que se realizou em Houston, onde teve também a companhia do Neil Young e da Linda Ronstadt...;
GP era, ele próprio, um "fallen angel", com um acentuado "deficit" de adaptação a este "Mundo", uma grande necessidade de reconhecimento e uma enorme dose de generosidade e de carinho para com os outros. A sua música e o seu olhar não enganam. Mas era, em simultâneo, embuído de um forte espírito de auto-destruição.
Tal como outros da mesma cepa, o seu "princípio de vida" parece ter sido "vive depressa, morre jovem e sê um belo cadáver"... Mas se o meu pai se tivesse suicidado com um tiro na cabeça quando eu tinha 13 anos; se pouco tempo depois um padrasto me levasse para longe e me obrigasse a mudar de cidade, de amigos e de nome; e se aos 19 anos tivesse visto a minha mãe morrer lentamente devido a problemas de subnutrição e excesso de alcool, talvez que eu também tivesse sido como ele...
GP adorava isolar-se no Joshua Tree National Park, a poucas centenas de kms a leste de Los Angeles. Aí morreu no dia 19 de Setembro de 1973, na"Joshua Tree Inn" em Joshua Tree, pequeno lugarejo junto a umas entradas do parque. Parece que não de overdose, como muito se escreveu na altura, mas de ataque de coração resultante de muito alcóol e muita droga acumulada.
A história que se seguiu à sua morte é conhecida e algo macabra: Parsons sempre desabafou com os amigos de que o seu maior desejo, quando morresse, era o de que as suas cinzas fossem largadas ao vento no deserto de Joshua Tree. Os amigos juraram promessa e um deles roubou o corpo que já estava em caixão de madeira no aeroporto de Los Angeles, levou-o para o tal deserto, regou-o com gasolina e deitou-lhe um fósforo... Claro que o amigo era bom de coração, mas mau de cabeça... De cinzas nada, a não ser um tronco humano meio chamuscado. E foi esse mesmo "objecto" que acabou por ser, dias depois de descoberta a história, sepultado num cemitério de New Orleans... Há muito que já deve ir no alto mar...
Nesta recente passagem pelos EUA, a maneira que eu encontrei para fazer a minha homenagem pessoal a GP foi atravessar de ponta a ponta o Joshua Tree National Park, ouvindo a sua música tão alto quanto o permitiram os ouvidos e a boa vontade da Cristina. Depois de alguma procura, lá acabei por encontrar a "Joshua Tree Inn", mesmo ao lado da estrada que liga Joshua Tree a Palm Springs.
É um motel de estrada simples, carregado de memórias do GP. A estreita salinha de jantar tem um pequeno quadro de homenagem a GP, certamente obra de algum(a) fã. Para além disso, as suas paredes estão cobertas de posters de concertos da época e de fotografias autografadas, nomeadamente uma da Emmylou Harris.
No pátio interior há uma espécie de"monumento" (na imagem), certamente construído por "admiradores", constituído por garrafas de cerveja, Jack Daniels e outras bebidas diversas, uma guitarra em miniatura e diversos objectos certamente ligados a práticas de espiritismo e outras afins. A frase "Safe at Home" corresponde ao nome do álbum dos "The International Submarine Band", e tem um óbvio sentido duplo.
O quarto nº 8, onde GP morreu, estava ocupado por um jovem que era uma sua cópia fiel. O mesmo estilo, o mesmo corte de cabelo, alguma timidez num olhar que não me era assim tão estranho. Deixou-me penetrar no quarto com prazer, pedindo-me desculpa pela desarrumação. Disse-me que fazia parte de um grupo e que se vinha refugiar naquele lugar com alguma frequência, em busca de inspiração. Afectado com a situação, não lhe liguei muito e não lhe perguntei mais nada, tendo-me despedido dele com um imbecil "maybe it's you the next bright star of cosmic american music" (era assim que GP gostava de designar a sua música).
Na mais conhecida das músicas que compôs, "Hickory Wind", GP evocava a South Carolina da sua adolescência, as árvores altas a que subia e o bom que era apanhar com aquele vento em cheio na cara. E acrescentava, na mesma música: "and now when I'm lonesome, I always pretend that I'm getting the feel of wickory wind"...
Jamais saberemos se uma breve lufada de ar fresco ainda foi a tempo de penetrar naquele quarto e de lhe passar suavemente pelos cabelos, antes de fechar os olhos para sempre...
Desculpem o devaneio!
Colaboração de Luís Mira