
DECCA - DFE 8535
In Grinzing – The Café Mozart Watlz – The Harry Lime Theme – Lili Marlene
O avô gostava muito do tema do filme “O Terceiro Homem”. O filho comprou-lhe o disco, um 78 RPM, tocado pelo Anton Karas, o célebre “The Harry Lime Theme”.
Anos mais tarde, já o avô tinha morrido, o pai também, encontrou num antiquário, ali para os lados do Campo Santa Clara (lISBOA), este EP com Anton Karas e a cítara, na capa.
Como estes tempos pré-natalícios são propícios a saudosismos, que não consegue disfarçar, foi buscar a capa: pelo avô, também porque gosta muito de Orson Welles, e, acima de tudo, por essa fantástica Alida Valli, “os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução”, no dizer de João Bénard da Costa, com quem nem sempre concorda, mas aqui tira-lhe o chapéu.
Dizem as más-línguas que o filme tem muito de Orson Welles e pouco de Carol Reed, o seu realizador. Não lhe custa a acreditar, mas não é coisa que se vá discutir agora.
Todo o filme está pontuado por esta extraordinária música de Anton Karas. Quase apetece dizer que o filme foi feito para aquela música. Sempre que a ouve, o filme vem-lhe à memória e revê toda aquela cena do final de “O Terceiro Homem”, um dos muitos grandes finais que o cinema já deu.
Tem sérias dívidas que continue a dar, pelo menos para o seu gosto.
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.
“Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim”, para voltar a citar João Bénard da Costa.
Em Itália, Alida Valli, manteve suspensa a sua carreira por se recusar a aparecer naquilo que, no seu lúcido entender, considerava ser propaganda fascista.
Orson Welles deixou escrito: “Não penso no que ficará de mim, nem isso me importa. Creio que é tão vulgar trabalhar para a posteridade como por dinheiro".
A ninguém interessará saber mas, esta noite, esta noite, vai rever “ O Terceiro Homem".
Colaboração de Gin-Tonic