terça-feira, 7 de novembro de 2017

NOS 100 ANOS DE UM CERTO NOVEMBRO


REGIS RECORDS   RRC 1074

Shostakovich: “Leningrad” – Symphony No, 7 C Major, Opus 60

1.      WAR, allegretto
2.      MEMORIES, adagio
3.       MY NATIVE FIELD
4.      VICTORY, allegro non troppo

Symphony Orchestra of West Germany Radio directed by Rudolf  Barshai

O pai não era um melómano.

Muito menos o é e, na família, apenas o filho chega a atingir o patamar da melomania.

A mãe, em devido tempo, colocou-o nas mãos da Dona Irene para lições de piano, mais tarde, muito mais tarde, andou pela guitarra clássica, para voltar, há meia dúzia de anos, ao piano.

Há bichinhos que ficam a morder por dentro e há que lhes abrir porta de saída.

Mas o quotidiano laboral dos dias que correm, é terra madrasta para quem, com uma família a cargo, pretende fazer algo de que muito gosta.

E hoje, nem piano, nem guitarra…

O pai limitava-se a adquirir as peças por puro gosto musical mas, em alguns casos, a política também o levava a adquirir os discos.

Tempo para invocar Tchaikovsky.

Quando o tempo era muito mais lento, a oferta musical de discos de música clássica, em vinil, era limitada e a Amazon ainda era um vago sonho na cabeça de alguém.

O advento dos CDs trouxe o que dantes se procurava e não encontrávamos.

Recorda-se de uma ou duas conversas sobre Shostakovich, do desejo que exprimia em ter a sua 7ª Sinfonia: Leningrad.

Não sabe se alguma vez a ouviu quando, madrugada dentro, passava horas à procura de estações de rádio europeias.

Por ele, só há coisa de quatro/cinco anos, graças a uma natalícia oferta do filho, a conheceu.

Coloca de lado a carga política da sinfonia, dedicada por Shostakovich às vítimas de Estalinegrado durante o cerco da Alemanha Nazi, em 1942, para dizer -  dizer o quê? -  que ficou surpreendido, agradado, uma alegria que começa e acaba no  inexplicável.

E lamenta que, por desconfianças muito suas, não a tenha ouvido mais cedo.

É bem provável que o pai, marxista-leninista que era, soubesse que Álvaro Cunhal reconhecia uma força artística, única, a esta sinfonia, que era uma das suas peças sinfónicas preferida.

Lamenta que o pai nunca tivesse encontrado o disco.

Mas está, agora em fundo a ouvi-la.

Pode ser que a música seja um ar que os mortos respiram.

Privilégios de quem gosta de sonhar que as coisas possam ser assim…

Ou como diz o cego do costume: é preciso ousar ser ingénuo.

Texto de Gin-Tonic

3 comentários:

Rato disse...

Saúda-se efusivamente o regresso deste blogue à actividade (pelo menos uma actividade não tão espaçada), o que, entre outras coisas, permite saborear de novo estes nacos de prosa do Gin-Tonic. Abaixo o Feice dos latifundiários, Vivam os blogues do povão!

ié-ié disse...

De acordo, Rato, abraço amigo, obrigado!

LPA

maria franco disse...

Também gosto bastante destas crónicas.
Pedaços de memórias partilhadas.