sábado, 23 de dezembro de 2017

OUVEM-SE TAMBORES AO LONGE


No Natal de 2012 comprou o Diário de Inverno de Paul Auster.

Qualquer pretexto lhe serve para comprar um livro.

Não sendo autor referencial da casa, bastou-lhe ler na contracapa:

Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.

Gostou do livro.

Mais ainda, quando quase a findar, leu:

Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse.

Sininhos de Natal tremelicaram. Também a ele o pai o visita. E lembrou-se, que por aí, tinha um qualquer registo que, voltas e mais voltas, acabou por encontrar:

Há espelhos que se aproximam de nós e trazem-nos as pessoas que somos.

Lembra-se dos tambores que o pai lhe deu no primeiro Natal?

Não, não se pode lembrar, mas é como se assim fosse.

Contaram-lhe a história e ele consegue ver.

O pai deu-lhe uma mão cheia de tambores, aqueles tambores de madeira com riscas vermelhas, pele de cartão, dois pauzinhos, os tambores, tambores que o pai quisera um dia ter na sua infância e que nunca lhe deram.

Há espelhos que vêm até nós com as imagens nunca vistas, mas que outros contaram.

E passam a ser nossas.

Pendurado nos livros, colocou o último boné que o pai usou, o seu ouvinte mais inteligente.

Tem dias, mas principalmente noites, que sente que o pai anda por aqui, aquele cheiro a tabaco negro, marca UNIC, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram

Uma voz: Então não há por aí um whisquinho e logo a seguir: já agora põe aí a Peggy Lee a cantar o «Johnny Guitar.

Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so warm inside.

Comove-se cada vez que olha o boné e disso fez um hábito.

Ouvem-se tambores ao longe.

E é quase Natal!

Texto: Gin-Tonic

Nota do editor: belo texto, bela foto e como conheço bem o boné!

1 comentário:

maria franco disse...

Sem dúvida um belo texto que mais parece um poema de amor
ao pai. Recordei a boina preta do meu querido pai que me
deixou faz hoje dezenas de anos. Por isso não gosto do
Natal. Era o meu querido pai, o meu melhor amigo. recordo
os seus olhos azuis e durante muito tempo imaginei-o a
olhar para mim escondido atrás das nuvens. Gostei muito
mesmo muito, desta terna evocação.