segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

AS CHEIAS DE NOVEMBRO DE 1967


No dia das cheias de 1967 - elas ocorreram na madrugada de 25 para 26 de Novembro - e no dia seguinte (27) ainda foi possível falar do número de mortos na primeira página. Depois, a Censura começou a intervir e a moldar a informação.

O "Diário Popular", na 3ª edição do dia 26 de Novembro, fala em manchete em 200 mortos (porque era o balanço oficial) e no dia seguinte, mas já não em manchete, refere 250 mortos.

Nos dias 28 e 29 não há informação sobre o número de mortos e só no dia 30, na página 9 se fala em "443 corpos recolhidos". Depois só se fala no dia 02 de Dezembro (451 mortos), no dia 05 (462) e, finalmente, no dia 09 (470, tratando este número como, praticamente, um "balanço definitivo"), assim tragicamente distribuídos:

Alenquer - 54
Arruda dos Vinhos - 14
Loures - 127
Oeiras - 33
Sintra - 18
Sobral de Monte Agraço - 3
Vila Franca de Xira - 221

Neste mesmo dia 09, o Ministério do Interior fez publicar uma extensíssima nota oficiosa onde, com um malabarismo notável, não fala no número de mortos, mas sim no número de casas para reconstruir ou reparar.

4 comentários:

filhote disse...

Nunca tinha ouvido falar destas cheias... deve ter sido terrível... e reparem, a edição do jornal já ia na 3ª tiragem!

DANIEL BACELAR disse...

POIS É "OS OUTROS" ERAM UNS GRANDECISSIMOS FILHOS DA MÃE,NINGUÉM TEM DÚVIDAS DISSO,MAS ESTES JÁ VIERA DIZER HOJE QUE A CULPA É DAS AUTARQUIAS!!!!
AGUARDAMOS COM EXPECTATIVA O QUE VAI ACONTECER AOS AUTARCAS DAS ZONAS AFECTADAS PELAS CHEIAS DESTA MADRUGADA E AS PESSOAS QUE MORRERAM.
DEVE SER COMO QUANDO SA.EXA,O MINISTRO DAS FINANÇAS VEIO PARA A ASSEMBLEIA DIZER QUE NO CASO BCP TINHAM ARRANJADO UM ESQUEMA DIABÓLICO PARA ENGANAR A FINANÇAS.
QUE ME CONSTE O JARDIM GONÇALVES COMTINUA A PAVONEAR-SE POR AI.
SE FÔSSE EU OU VOCÊS JÁ ESTÁVAMOS NA "CHOLDRA"!!!!

gin-tonic disse...

Porque neste país houve uma censura. Às imagens, às palavras, ao pensamento, ao número de mortos de uma catástrofe.
Do livro "Os Segredos da Censura" do jornalista César Principe, citam-se algumas das recomedações e conselhos, por parte da censura, aos jornalistas:
"27/11/67 - Gravuras da trajédia: é conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de por os títulos mais pequenos.Tenente Teixeira."
"29/11/67 - Inundações: os títulos não podem exceder meia página e vão à CENSURA. Não falar do mau cheiro dos cadáveres. Actividades beneméritas de estudantes: CORTAR - Dr. Ornelas"
"2/12/67 - Deliberação do Senado Universitário de Coimbra acerca do auxílio a prestar às vítimas das enxurradas - CORTAR. A notícia só pode sair nos jornais de Coimbra. No noticiário das enxurradas não dizer que se acode às classes populares e se despreza a classe média."

Rato disse...

Oportuno comentário, ó gin-tonic (inspiraste-te no Mário Henrique Leiria para o teu pseudónimo? Sempre fui um ávido leitor daqueles contos magníficos). Nunca é demais lembrar que já ouve censura neste país. Há para aí tantos esquecidos...